segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A dor que cura


Há tempos atrás ouvi de um amigo a frase "Os olhos são as janelas da alma e as vezes precisam ser lavadas". Hoje eu e o Lucas lavamos as nossas "janelas" em conjunto, como já fizemos algumas vezes. Há tempos ele vem demonstrando que não gosta que eu fale de sua vida para as pessoas e quando me via na tv contando sobre o seu nascimento começava a chorar. No início eu não entendia o motivo mas não demorou pra eu sacar qual era a dele. Já o ouvi chorar tantas vezes, na rua, em casa, no shopping, sem saber direito o motivo, apenas imaginando... já chorei tantas vezes me perguntando como ajudá-lo e já o levei a médicos e psicólogos, e nada...
Hoje fui com seu pai buscá-lo na escola, era prova, todas as crianças sairiam mais cedo e a perua não podia ir buscá-lo, por não conciliar o horário. Aproveitei que precisava levar os convites do lançamento do livro para o pessoal da escola e o levei junto comigo nas salas dos professores que temos mais contato. Ele começou a ficar irritado e resmungava. Não dei muita atenção, era impossível com aquela barulheira de horário de saída da escola. No caminho de casa ele deixou claro que não queria nem olhar pra minha cara e me dizia quase chorando:
- Não gosto de você, mãe.
Encontramos um conhecido, cadeirante, e aproveitei para lhe dar um convite e dessa vez ainda pedi permissão ao Lucas. Ele disse que eu podia dar um convite ao rapaz, mas logo começou a chorar. Fomos até em casa, seu pai e eu em silêncio ouvindo o seu choro alto chamando atenção das pessoas que passavam ou que estavam na rua. Dava pra ver os pontos de interrogação acima da cabeça das pessoas que olhavam pra nós.
Chegamos em casa, seu pai o colocou no quarto e ele aos berros. Fomos tentar conversar, ele pediu pro pai sair e ficamos nós dois no quarto. Perguntei se podia lhe dar um abraço e com sua permissão o abracei forte. Ele chorava ainda mais alto, até doia meus ouvidos e aos prantos me disse:
- Minha vida é horrível!!!
........
Doeu... já faz uma hora mais menos e ainda ouço a frase ecoando na minha cabeça. Meu Deus, o que fazer pra ajudá-lo a superar tamanha dor?!! E chorando junto eu comecei a conversar com ele, quase implorando pra ele compreender que sua vida não é horrível.
Sabem o que é pior? Como eu compreendo a sua dor. Até parece que estou lá sentada naquela cadeira azul e amarela com cinto no meu quadril, outro no meu tórax e ainda um nas minhas pernas, com o apoio de cabeça limitando a minha visão quando tento ver o que está ao meu lado e tantos outros detalhes que me impedem de sair correndo e fazendo as mesmas coisas que as demais crianças fazem... Sei que não adianta eu perguntar o porque, até mesmo pq acho que já encontrei a resposta.
Falar que o amava era pouco, isso não alivia a sua dor. Ele ainda continua dependendo da cadeira e com suas limitações físicas. Tentei mostrar a ele que tinha algo muito importante; o fato de pensar e se expressar, que estamos ao seu lado e que vamos ajudá-lo em tudo que for necessário. E faremos mesmo tudo o que estiver ao nosso alcance pra que ele seja feliz e aproveite a vida da melhor maneira possível.
E como tudo na vida tem o seu lado bom, ao mesmo tempo em que estou sofrendo por partilhar a dor do meu filho, estou aqui vibrando de alegria. Eureka! finalmente descobri porque ele fica tão nervoso quando falo da sua história para as pessoas e também isso explica os choros na loja de brinquedos e alguns outros lugares divertidos pra nós, mas intediantes pra ele.
Estou também feliz porque ele conseguiu se expressar e ser compreendido. Após uns 40 minutos de conversa e choro, ficou mais tranquilo e acredito que esse é o caminho pra que ele consiga superar essa fase de aceitação da sua condição física. Vamos conseguir, tenho certeza! E um dia quem sabe ele mesmo não conta para as pessoas sobre a sua história. Não acredito  no impossível e sou bem teimosa quando quero uma coisa... Oxalá!!
Comentários
7 Comentários

7 comentários:

Thaty Richter disse...

Antonia, tb estou passando por isso com o meu Roberto. Vez por outra ele me chama e me questiona, questiona Deus, o pai ... enfim... um dia depois do outro. Parabéns pelo livro, querida!

Antônia Yamashita disse...

Obrigada Thaty, muita força pra "nós" e para os nossos pequenos guerreiros. Que tenhamos muita sbedoria para ajudá-los nesses momentos. bjs

Marina Dantas disse...

Olá Antonia!
Sou mãe do Gabriel, após uma gravidez muito tranquila, não entrei em trabalho de parto e finalmente a médica decide marcar a cesária... tarde demais, o Gabriel ja estava em sofrimento. Teve uma anoxia tb! Recebemos sua "sentença" ja no dia do seu nascimento... isto é, ele provavelmente não sobreviveria, mas se sobrevivesse.... Hj ele esta em casa e tem 6 meses.
Fiquei muito emocionada e feliz por saber que Lucas consegue expressar o que sente! Tenho muito medo de não ter este tipo de resposta do Gabriel! Lucas parece ser um menino muito esperto e sensivel!
Mas gostaia de deixar um recadinho para o Lucas: Por favor diga a ele, que a vida dele não é horrivel! É só a vida dele! Uma vida com muitas dificuldades, mas não horrivel! Apos ler seu livro e o blog, ver a força dele tem nos dado muita força para cuidar do nosso Gabrielzinho... Que mesmo sem saber, Lucas faz muito bem, da muita força e paz para pessoas que passam por situações parecidas!
As vezes olhamos para o lado e o que imaginamos ser felicidade, é uma felicidade fragil e vazia... Eles vieram desta forma para nos mostrar a real felicidade! Uma felicidade que não se abala por pequenas coisas! De um grande beijo nele com muito carinho por mim!
Que Deus continue abençoando ,dando forças e protegendo vcs! Marina

Anônimo disse...

Oi amiga estou chorando junto com vce o Lú, é bom ouvir seus relatos, tb ando passando por uma situação parecida com Caio, quando tiver um tempinho conversaremos pelo mns. UM BEIJO PRA VCS
Gláucia ( um xero)

Antônia Yamashita disse...

Obrigada Marina, muita força pra vcs tb. Estimule bastante o Gabriel e acredite que ele conseguirá. Grande abraço,

Glaucia amiga, um xero e forças pra vc tb guerreira!

HELENA QUINTANA MINCHIN disse...

Pois é ...
Conhecer o Lucas ... e sua família.
Assim, se pronto!
Interrogações eu tinha, sem dúvida!
Mas confiava também!
E assim foi no dia em que nos conhecemos pessoalmente, num dos lugares que mais amo: o Parque Ibirapuera!
O Universo conspirava a nosso favor e foi tudo maravilhoso!
Sim ... há "diferenças" ... mas quem é o "idealmente certo"?
E qual será o melhor caminho a percorrer?
Sem dúvida ... "longe é o lugar que não existe"...
Um grande beijo!

Antônia Yamashita disse...

É engraçado Helena... e cá estamos nós com planos pro amanhã rsrs.
Bjks